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quarta-feira, 5 de julho de 2017

“AS SETE MARAVILHAS DA ESPIRITUALIDADE”

Sempre ouvimos comentários, na mídia, das chamadas Sete Maravilhas do Mundo. São obras faraônicas, que marcaram a história das civilizações mundiais, e algumas delas já nem existem… Perderam-se no tempo, ou foram destruídas em acidentes e guerras.
Houve nova eleição em 2007, sendo então eleitas as sete maravilhas do “mundo moderno”. Para fins didáticos, nos referiremos às anteriores como referentes ao mundo antigo, que são:
1. Pirâmide de Quéops;
2. Jardins Suspensos da Babilônia;
3. Estátua de Zeus, em Olímpia;
4. Tempo de Ártemis, em Éfeso;
5. Mausoléu de Halicarnasso;
6. Colosso de Rodes;
7. Farol de Alexandria;
As eleitas no ano de 2007, referentes aos tempos atuais foram:
1. As muralhas da China;
2. Petra;
3. O Cristo Redentor;
4. Machu Picchu;
5. Chichén Itzá;
6. Coliseu;
7. Taj Mahal;
A Doutrina Espírita, codificada por Kardec, transmite-nos inúmeras maravilhas! Porém, tivemos o cuidado de escolher apenas sete, numa alusão ao tema. O critério de escolha não foi a importância, sendo colhidas de forma aleatória:
1. DEUS
“Inteligência suprema, causa primária de todas as coisas”, soberanamente justo e bom. Essas informações já seriam suficientes, para nos fortalecermos na caminhada evolutiva.
Podemos, porém, usar como referência da grandiosidade do Pai, os dizeres de Francisco Cândido Xavier, no capítulo 28 da obra “Na Era do Espírito”:
- (…) Porque tudo está dentro da Ordem Divina. Cada mundo, cada sistema, cada galáxia, orientados por Inteligências Divinas, e Deus para lá disso tudo, sem que possamos fazer-lhe uma definição.
2. IMORTALIDADE DO ESPÍRITO
Em sua inteligência suprema e amor inigualável, criaria Deus seres perecíveis?
Os seres criados por Deus são imortais! Momentaneamente, vestimos corpos físicos, pois somos testados em nossas tendências, através do esquecimento de nossos atos passados e daquilo que combinamos para essa encarnação. Mas jamais deixaremos de existir!
3. COMUNICABILIDADE
Em seu infinito amor, Deus se fez Pai dos encarnados e também dos desencarnados. Havendo duas dimensões (física e espiritual), perguntamos: Deus criaria dois planos (ou dimensões) isolados?
A lógica nos diz que deve haver comunicação entre os dois planos, ambos habitados por irmãos nossos.
Esse raciocínio nos leva a crer na comunicabilidade dos desencarnados com os encarnados, através de uma ferramenta chamada mediunidade.
Fala-se muito na transcomunicação instrumental. Mas a ferramenta mediúnica nos coloca muito a frente desses aparelhos eletrônicos, pois o médium pode comunicar-se com os espíritos diretamente pelo pensamento!
4. REENCARNAÇÃO
Reflete o retorno do espírito ao plano físico, para nova série de provas e a expiação dos erros mais grotescos do seu passado.
Citada de forma indireta por Jesus, e referida em inúmeras passagens do Antigo Testamento, a pluralidade das existências nos possibilita o esquecimento do passado, pela limitação vibratória imposta pelo corpo físico. Assim, sem a lembrança dos erros passados e daquilo que combinamos para essa existência, devemos analisar as tendências que portamos para nos conhecermos. É inegável que o autoconhecimento é a primeira e maior ferramenta da reforma íntima.
5. PLURALIDADE DOS MUNDOS HABITADOS
Nas notas do evangelista João, o governador espiritual do orbe nos revela:
– Na casa do meu Pai há muitas moradas…
Reflitamos: onde fica a “casa do Pai”?
Será que a morada divina restringe-se ao planeta Terra? Seria menosprezar a sabedoria e o amor divino. Jesus nos revela, por essas palavras, que existe vida inteligente fora do nosso orbe. Cada planeta do Universo infinito tem, teve ou terá habitantes em vias de progresso.
6. LEI DO PROGRESSO
Umas das mais sublimes entre as Leis Morais (3ª parte de “O Livro dos Espíritos”) possibilita-nos o crescimento mediante o esforço!
Hoje, melhores do que ontem!
Amanhã, melhores do que hoje!
Sempre amparando e sendo amparado! (Vide questão 779 da mesma obra).
7. LEI DO TRABALHO
Pois é através do trabalho que se progride, e já sabemos que não se pode colher sem plantar!
Bendita Doutrina Espírita, que nos proporciona tanta iluminação!


André Sobreiro

“RELAÇÕES CONFLITIVAS ENTRE PAIS E FILHOS DIANTE DA ESPIRITUALIDADE! ”

Para melhor se compreender as relações conflitivas entre pais e filhos, deve-se levar em conta, também, a pluralidade das existências. Vivemos atualmente uma educação libertadora, onde muitos pais usam o diálogo amoroso e negociam com seus filhos, comportamentos éticos mínimos necessários para viverem em sociedade como cidadãos íntegros e conscientes da finalidade da vida.
No entanto, muitos se confundem, sendo partidários da liberdade absoluta, chegando ao anarquismo, deixando aos filhos a decisão e consecução dos seus mais estranhos desejos, favorecendo a geração de conflitos inimagináveis entre eles, tais como o parricídio e filicídio. É lamentável que tal aconteça entre almas que saíram do torvelinho da escuridão espiritual pelo retorno à matéria, com a promessa de se perdoarem e iniciarem a jornada ascensional em direção à luz.
Foi o Codificador quem melhor esclareceu, do ponto de vista da reencarnação, as causas anteriores dos conflitos familiares. Escreveu ele: “Quantos pais são infelizes com seus filhos, porque não lhes combateram as más tendências desde o princípio! Por fraqueza, ou indiferença, deixaram que neles se desenvolvessem os germens do orgulho, do egoísmo e da tola vaidade, que produzem a secura do coração; depois, mais tarde, quando colhem o que semearam, admiram-se e se afligem da falta de respeito e a sua ingratidão.”
Permita-me o leitor relembrar que tendência é uma energia que incita alguém a seguir um determinado caminho ou agir de certa forma. É uma predisposição natural, inclinação, vocação. Pode ser boa ou má. Não é instinto, pois não se origina de uma necessidade biológica, não devendo ser com ela confundido. O Espiritismo define a tendência como uma força espiritual que adormece no Inconsciente Profundo de todos nós e que se debate para despertar no Consciente e se manifestar nos atos, palavras, sentimentos e pensamentos.
São elas manifestações do Espírito velho reencarnado, que as crianças já demonstram a partir dos primeiros meses de vida material, as quais devem ser levadas em alta conta pelos pais. Lembra André Luiz: “Se o Espírito reencarnado estima as tendências inferiores, desenvolvê-las-á, ao reencontrá-las dentro do novo quadro da experiência humana, perdendo um tempo precioso e menosprezando o sublime ensejo de elevação” . Daí a necessidade de levar em consideração o poder da influência do meio e dos exemplos dados pelos pais aos seus filhos.
Nem sempre os pais admitem a manifestação das inclinações inferiores em seus filhos, já que alimentam a ideia de que são inocentes e que tudo não passa de infantilidade, sem observar que nem todas as crianças sentem prazer em destruir brinquedos e outros objetos, maltratar animais domésticos, agredir colegas da creche e da escola de forma sistemática.
Crianças que chutam, xingam e gritam violentamente, não respeitando os pais nem aqueles que são responsáveis por elas, merecem atenção especial, para se buscar as razões de tais procedimentos, que não são unicamente do estado de infância. Joanna de Ângelis ensina que “Essas inclinações más ou tendências para atitudes primitivas, rebeldes, perturbadoras do equilíbrio emocional e moral, são heranças e atavismo insculpidos no Self, em razão da larga trajetória evolutiva, em cujo curso experienciou o primarismo das formas ancestrais [...] .
Sem dúvida, não é somente a mãe a responsável pela formação moral do filho. O pai também responde pelas suas negligências ou fracasso da missão que recebeu para cooperar com a esposa nesse mister. No entanto é universalmente comprovada a força influenciadora da mãe sobre seus filhos, que lhes exerce um efeito psíquico alimentador. E é por essa razão que o Mentor Emmanuel ensina que “A mãe terrestre deve compreender, antes de tudo, que seus filhos, primeiramente, são filhos de Deus. Desde a infância, deve prepará-los para o trabalho e para a luta que os esperam. Desde os primeiros anos, deve ensinar a criança a fugir do abismo da liberdade, controlando-lhe as atitudes e concertando-lhe as posições mentais, pois que essa é a ocasião mais propícia à edificação das bases de uma vida.”
Quando o Codificador perguntou aos Espíritos (LE - questão 890) se o amor materno era uma virtude ou um sentimento instintivo, comum aos homens e aos animais, eles responderam que seria “uma e outra coisa”. Seria virtude, que não é uma graça obtida, mas um hábito adquirido; e seria instinto, que no animal se limita a prover as necessidades primárias das crias. Sabendo o professor Rivail que nem todas as mães possuem esse sentimento tão nobre de que falam as entidades do Além-túmulo, redarguiu: - “como é que há mães que odeiam os filhos e, não raro, desde a infância destes?” E a resposta foi a de que, em muitos casos, pode ser uma prova ou expiação que o filho escolheu para enfrentar uma mãe má. Fica, portanto, implícito que o Espírito ao reencarnar na condição de mãe nem sempre terá o amor pelo futuro filho. (LE - questão 891)
Não obstante encontrarmos valiosos esclarecimentos para as relações conflitivas entre pais e filhos; na verdade da reencarnação e na Lei de causa e efeito, não devemos ser reducionistas na apreciação dessa modalidade de conflito. “Sem dúvida, muitos pais,
despreparados para o ministério que defrontam em relação à prole, cometem erros graves, que influem consideravelmente no comportamento dos filhos, que, a seu turno, logo podem se rebelar contra estes, crucificando-os nas traves ásperas da ingratidão, da rebeldia e da agressividade contínua, culminando, não raro, em cenas de pugilato e vergonha.”
Em verdade, quase todos nascemos despreparados para sermos pais, amar e educar os filhos na forma ideal, conforme os estudiosos do assunto e os Espíritos Superiores. Diante disso, teremos que buscar ajuda nas ciências que tratam do relacionamento interpessoal, com enfoque na família. Não há dúvida que as técnicas psicológicas e a metodologia da educação favorecem profundamente o êxito desse empreendimento. O diálogo aberto e sincero, a solidariedade, a indulgência, a energia moral e o amor dilatado em todos os sentidos são instrumentos de que os pais podem adotar para merecerem o respeito e a confiança dos filhos. Imprescindível acompanhar o desenvolvimento bio-psico-social deles, na tentativa de compreender-lhes o comportamento, levando em conta a idade, capacidade intelectual, estágio espiritual e o contexto social em que estão inseridos.
Aos pais lhes é dada pelo Criador a árdua e compensadora missão de conduzir os filhos, preparando o adolescente e o homem do futuro; moldando-os com cinzel das admoestações amorosas; alimentando suas mentes com as conversações dignificantes; oferecendo-lhes exemplos de caráter saudável, carinho e amizade.
Esses procedimentos promovem a desintegração dos quistos conflitantes na família, com etiologia em vidas pregressas, evitando que novos desajustes se iniciem na vida atual. A família de cada um de nós é estruturada com base na lei da causa e efeito; pais e filhos se reencontram porque necessitam uns dos outros, almejando a reconciliação. Vital é que a tolerância, a indulgência e o perdão se façam presentes nos momentos difíceis, para que o recomeço, bênção divina, se transforme em ventura espiritual.

Fonte: Waldehir Bezerra de Almeida

“POR QUE DEUS PERMITE O SOFRIMENTO NO MUNDO?”

Uma pergunta muito comum que as pessoas fazem é: 
“Se Deus é infinitamente bom, justo e misericordioso, por que Ele permite tantos sofrimentos no mundo?”
Vamos responder essa pergunta com uma pequena estória, para que todos possam compreender a permissão de Deus sobre nossos sofrimentos. 
Havia um rapaz que recentemente enveredara pelo caminho das drogas. Seu pai muito o aconselhou para não seguir este direcionamento na vida, mas o rapaz não o ouviu. Experimentou algumas drogas e após um tempo não conseguia mais parar de usar. O pai conversou com ele e insistiu que ele fizesse um tratamento. O rapaz recusou. O pai tentou mais uma vez e o rapaz não o ouviu.
 Seu pai então providenciou que ele fosse internado numa clínica de reabilitação antidrogas. O filho fez todo o tratamento, se desintoxicou e foi liberado. No entanto, duas semanas depois já estava se drogando novamente. O pai decidiu mais uma vez leva-lo a uma clínica e fez todo o tratamento, mas assim que recebeu alta, novamente foi se drogar. O pai o internou cinco vezes, mas em todas as oportunidades o filho retomava o antigo padrão e voltava a suar drogas. 
O pai, desesperado, já não sabia mais o que fazer. Decidiu então que nada mais poderia ser feito, pois o filho simplesmente não correspondia, não reagia e tampouco queria ser ajudado. Ele desejava continuar mergulhado no mundo das drogas e nada do que o pai fizesse poderia lhe tirar desse caminho. O pai então decidiu que permitiria que o filho vivesse essas experiências para que chegasse sozinho a conclusão. Um dia ele entenderia o malefício das drogas e que, na verdade, ele estava se destruindo. 
O filho então saiu de casa e passou a praticar roubos. Ele vivia de assalto em assalto, pois só assim conseguia usar as drogas e se alimentar. Tornou-se um marginal e logo virou um traficante conhecido. Certo dia levou um tiro numa guerra entre facções para controle de uma boca de fumo. Foi para o hospital, ficou em coma por semanas e depois voltou. Assim que retomou a consciência, decidiu que largaria esse caminho… 
Essa estória ilustra um pouco o que acontece com o ser humano neste mundo. Como um pai pode ajudar um filho que não deseja ouvi-lo e quer permanecer no caminho do erro e da ilusão? Podemos tentar orienta-lo de várias formas, dar o tratamento adequado, mas se a pessoa insiste no erro, é necessário permitir que ela sofra as consequências de suas próprias ações. É mais ou menos assim que funciona o sofrimento humano. Deus procura enviar diversos tipos de mensagens sobre os erros que cometemos, mas nós não O ouvimos e não mudamos de caminho; insistimos no erro e na ilusão. O homem insiste em permanecer na embriaguez das ilusões do mundo, e Deus autoriza que venha a dor, o sofrimento, o desespero, as perdas, etc., para liberta-lo. 
Dessa forma, Deus autoriza o sofrimento para que, somente assim, possamos encontrar o caminho real e nos transformar. Se as pessoas querem viver de tal modo a criar o sofrimento para si mesmas, Deus permite que isso seja feito para que elas possam aprender e despertar para a realidade. Nesse sentido, o sofrimento acaba sendo a única forma do espírito acordar dos sonhos e miragens mundanas que criou para si mesmo.

(Hugo Lapa)



“ O DIA EM QUE CHICO XAVIER TEVE UMA VISÃO ESPIRITUAL DE JESUS CRISTO- A MAIOR VISÃO ESPIRITUAL JÁ VIVIDA POR CHICO”.

Ao longo dos anos em que ia a Uberaba conheci muita gente. Gente boa, gente meio boa e gente menos boa. Algumas o tempo vai apagando lentamente, mas jamais terá força suficiente para apagar de minhas lembranças a figura encantadora que vocês vão passar a conhecer.
Numa daquelas madrugadas, quando as reuniões do Grupo Espírita da Prece se estendiam até ao amanhecer, vi-o pela primeira vez. Naquela filas quase intermináveis, que se formavam para a despedida ou para uma última palavrinha ainda que rápida com Chico, ele chamou-me a atenção pela alegria com que esperava a sua vez. Vinha com passos cansados, o andar trôpego, a fisionomia abatida, mas seus olhos brilhavam à medida que se aproximava do médium. Não raro, seu contentamento se traduzia em lágrimas serenas, mas copiosas. Trajes pobres, descalço, pés rachados, indicando que raramente teriam conhecido um par de sapatos. Calça azul, camisa verde, com muitos remendos; um paletó de casimira apertava-lhe o corpo franzino. Pele escura, cabelos enrolados, nos lábios uma ferida. Chamava-se Jorge. Creio que deve ter tomado poucos banhos durante toda a vida. Quando se aproximava, seu corpo magro, sofrido e mal alimentado exalava um odor desagradável. Em sua boca, alguns raros tocos de dentes, totalmente apodrecidos. Quando falava, seu hálito era quase insuportável. Ainda que alguém não quisesse, tinha um movimento instintivo de recuo. Quando se aproximava, tínhamos pressa em dar-lhe algum trocado para que ele fosse comprar pipoca, doce ou um refrigerante, a fim de que saísse logo de perto da gente.
Jorge morava com o irmão e a cunhada num bairro muito pobre - uma favela, quase um cortiço. Seu quarto era um pequeno cômodo anexado ao barraco do irmão. Algumas telhas, pedaços de tábuas, de plásticos, folhas de lata emolduravam o seu pequeno espaço. O irmão e a cunhada eram bóias-frias. Jorge ficava com as crianças. Fazia-lhes mingau, trocava-lhes os panos, assistia-os. Alma, assim, caridosa acredito que sofresse maus tratos. Muitas vezes o vi com marcas no rosto e, ainda hoje, fico pensando se aquela ferida permanente em seu lábio inferior não seria resultante de constantes pancadas. Pois o Chico conversava com ele, cinco, dez, vinte minutos. Nas primeiras vezes, pensava: "Meu Deus! Como é que o Chico pode perder tanto tempo com ele, quando tantas pessoas viajaram milhares de quilômetros e mal pegaram sua mão?!? Por que será que ele não diminui o tempo do Jorge para dar mais atenção aos outros?" Somente mais tarde fui entender que a única pessoa capaz de parar para ouvir o Jorge era ele.
Em casa, o infeliz não tinha com quem conversar; na rua, ninguém lhe dava atenção. Quase todas as vezes em que lá estive, lá estava ele também. Assim, por alguns anos, habituei-me a ver aquele estranho personagem que, aos poucos, me foi cativando. Hoje, passados tantos anos, ao escrever estas linhas ainda choro. A gente corre o risco de chorar um pouco, quando se deixou cativar, não é mesmo? Nunca ouvimos de sua boca qualquer palavra de queixa ou revolta.
Seu diálogo com o paciente médium era comovente e enternecedor:
- “Jorge, como vai a vida?”
- “Ah, Tio Chico, eu acho a vida uma beleza!”
- “E a viagem, foi boa?”
- “Muito boa, Tio Chico! Eu vim olhando as flores que Deus plantou no caminho para nos alegrar!”
- “Do que você mais gosta de olhar, Jorge?”
- “O azul do céu, Tio Chico! Às vezes penso que o Sinhô Jesus tá me espiando por detrás de uma nuvem!”
Depois o visitante falava da briga dos gatos, da goteira que molhou a cama, do passarinho que estava fazendo ninho no seu telhado. Quando pensava que tudo havia terminado, o dono da casa ainda dizia:
- “Agora, o nosso Jorge vai declamar alguns versos”.
Eu chegava até a me virar na cadeira, perguntando a mim mesmo: "Onde é que o Chico arruma tanta paciência?"
Jorge declamava um, dois, quatro versos.
- “Bem, Jorge, agora, para a nossa despedida, declame o verso que mais gosto.”
- “Qual, tio Chico?”
- “Aquele, da moça!”
- “Ah, Tio Chico! Já me lembrei. Já me lembrei!!!”
Naquelas horas, o centro continuava lotado. As pessoas se acotovelavam, formando um grande círculo em torno da mesa.
Jorge colocava, então, o colarinho da camisa para fora, abotoava o único botão de seu surrado paletó, colocava as mãos para trás, à semelhança de uma criança quando vai declamar na escola, ou perante uma autoridade, olhava para ver se o estavam observando e sapecava, inflado de orgulho:
- "Menina, penteia o cabelo. Joga as tranças para a cacunda. Queira Deus que não te leve de domingo pra segunda!"
Quando terminava, o riso era geral. Ele também sorria. Um sorriso solto e alegre, mas ainda assim doído, pois a parte inferior de seus grossos lábios se dilatava, fazendo sangrar a ferida. Aí ele se aproximava do médium, que lhe dava uma pequena ajuda em dinheiro. Em todos aqueles anos, nunca consegui ver quanto era. Depois colocava o dinheiro dentro de uma capanga, onde já havia guardado as pipocas, os doces, dando um nó na alça do pano. Para se despedir, ele não se abraçava ao Chico: ele se jogava, sim, todo por inteiro, em cima do Chico! Falava quase dentro do nariz do Chico e eu nunca o vi ter aquele recuo instintivo como eu tivera tantas vezes.
Beijava-lhe a mão, o qual também beijava a mão e a face dele, ao que ele retribuía, beijando os dois lados da face do Chico, onde ficavam manchas de sangue deixadas pela ferida aberta em seus lábios. Nunca vi o Chico se limpar na presença dele nem depois que ele se tivesse ido. Eu, muitas vezes, ao chegar à casa dele, molhava um pano e limpava o que passamos a chamar carinhosamente de "o beijo do Jorge..."
Não saberia dizer quantas vezes pensei em levar um presente àquele pobre irmão - uma camisa... um par de sapatos... uma blusa. Infelizmente, fui adiando e o tempo passando. Acabei por não lhe levar nada. Lembro-me disso com tristeza e as palavras do apóstolo Paulo se fazem mais fortes nos recessos de minha alma: "Façamos o bem, enquanto temos tempo". Enquanto temos tempo. De repente, fica tarde demais.
Jorge desencarnou. Desencarnou numa madrugada fria. Completamente só em seu quarto. Esquecido do mundo, esquecido de todos, mas não de Deus.
Contou-me o Chico que foi este nosso irmão de pele escura, cabelos enrolados, ferida nos lábios, pés rachados, mau cheiro e mau hálito que, ao desencarnar, Jesus Cristo veio pessoalmente buscar. Entrou naquele quarto de terra batida, retirou Jorge do corpo magro e sofrido, envolto em trapos imundos, aconchegou-o de encontro ao peito e voou com ele para o espaço, como se carregasse o mais querido dos seus irmãos!
"Eis que estarei convosco até o fim dos séculos."
"Não vos deixarei órfãos."
Ele não faria uma promessa que não pudesse cumprir.

  Histórias de Chico Xavier